Leonard Ravenhill

Leonard Ravenhill foi um evangelista protestante britânico conhecido por sua ênfase radical na oração, na santidade pessoal e no arrependimento genuíno. Nascido em 1907, na Inglaterra, e posteriormente radicado nos Estados Unidos, Ravenhill tornou-se uma das vozes mais proféticas do evangelicalismo do século XX, especialmente no que diz respeito à crítica à superficialidade espiritual da Igreja moderna.v
Leonard Ravenhill oração

Escrevo estas linhas como Roger Funchal, escritor cristão, protestante por convicção e herdeiro consciente de uma fé que não nasceu comigo, mas me precede. Não escrevo como biógrafo neutro, nem como devoto acrítico. Escrevo como alguém que foi confrontado, corrigido e, em certos momentos, profundamente incomodado pela vida e pela mensagem de Leonard Ravenhill. E confesso: esse incômodo foi graça.

Conheci Ravenhill primeiro por suas palavras, não por sua história. Antes de saber onde nasceu ou quando morreu, eu já sentia o peso de suas frases. Havia nelas algo que não se encontra facilmente: temor de Deus. Não o temor performático, usado para controlar consciências, mas o temor bíblico que nasce da visão da santidade divina. Ao longo dos anos, ao estudar sua trajetória com rigor histórico, percebi que aquela voz não era um acidente retórico. Ela era o resultado coerente de uma vida moldada pela oração, pela Escritura e por uma recusa deliberada em se ajustar ao espírito do seu tempo.

Leonard Ravenhill nasceu em 18 de junho de 1907, em Leeds, na Inglaterra, e foi formado num contexto metodista que ainda carregava ecos vivos da espiritualidade de John Wesley. Isso é historicamente importante. O metodismo clássico enfatizava santidade pessoal, disciplina espiritual e vida devocional intensa. Ravenhill não inventou essas ênfases; ele as recebeu. O que fez foi levá-las às últimas consequências numa época em que muitos já haviam aprendido a suavizá-las.

Ele viveu entre duas guerras mundiais, testemunhou o declínio do cristianismo nominal europeu e, mais tarde, observou de perto a ascensão do evangelicalismo de massa nos Estados Unidos. Quando se mudou para lá, já adulto, não foi seduzido pelo sucesso numérico nem impressionado pelas grandes estruturas. Pelo contrário: quanto mais via igrejas cheias e vidas rasas, mais se convencia de que algo essencial havia sido perdido. Essa convicção não é uma leitura psicológica posterior; ela aparece repetidamente em seus sermões gravados, em seus livros e em entrevistas concedidas ao longo das décadas.

Ravenhill não era um teólogo sistemático no sentido acadêmico. Não construiu tratados doutrinários extensos, nem buscou reconhecimento universitário. Sua teologia era bíblica, pastoral e profética. Ele lia as Escrituras não como material para palestras, mas como fogo para o altar. Textos como Isaías 6, Joel 2, Atos 1 e 2, Hebreus 12 e Tiago 5 não eram para ele referências ocasionais; eram o eixo interpretativo de sua visão de Igreja. Quando falava de avivamento, não o fazia como quem anuncia um evento, mas como quem lamenta uma ausência.

Um dos fatos mais bem atestados de sua vida é a centralidade absoluta da oração. Isso não é mito edificante. Pessoas que conviveram com Ravenhill, entre elas David Wilkerson, testemunharam de sua disciplina rigorosa de oração e jejum. Seus livros mais conhecidos — Why Revival Tarries, Revival Praying, The Apostolic Church — são, na prática, longos apelos para que a Igreja volte aos joelhos. Ele cria, com base clara nas Escrituras, que não existe poder espiritual duradouro sem intimidade com Deus, e que nenhuma técnica ministerial substitui o quebrantamento.

Essa convicção o colocou em rota de colisão com grande parte do evangelicalismo moderno. Ravenhill criticava abertamente a superficialidade do culto, a obsessão por números, a tolerância ao pecado entre líderes e a substituição do Espírito Santo por métodos de marketing religioso. Essas críticas não eram genéricas; elas surgiam de observações concretas e eram sustentadas por argumentos bíblicos. Ele não rejeitava organização nem desprezava o evangelismo público. O que rejeitava era a ideia de que resultados visíveis pudessem compensar a ausência de santidade invisível.

Há quem o acuse de severidade excessiva. Historicamente, essa crítica existe e não deve ser ignorada. Ravenhill não era um homem conciliador. Seu tom era duro, por vezes desconfortável, e ele pouco se preocupava em suavizar palavras para preservar reputações. No entanto, também é historicamente verificável que ele viveu aquilo que pregava. Não acumulou riquezas, não construiu impérios ministeriais, não se promoveu como celebridade. Viveu de forma simples, publicou livros que continuam a circular décadas após sua morte e manteve uma coerência moral rara.

Suas convicções bíblicas centrais permanecem claras quando analisamos sua obra. Ele cria profundamente na santidade de Deus, e isso moldava tudo o que dizia. Para Ravenhill, Deus não era um recurso terapêutico nem um acessório da vida moderna; era o Santo diante de quem Isaías tremeu. Essa visão tornava inevitável sua ênfase na realidade do pecado. Ele não o tratava como disfunção, mas como rebelião contra Deus, algo que exige arrependimento real, não apenas linguagem piedosa.

Outra marca inegociável de sua mensagem era a consciência da eternidade. Ravenhill falava de juízo, céu e inferno com naturalidade bíblica, não como instrumento de manipulação emocional, mas como verdades esquecidas que precisam ser lembradas. Ele via nisso um antídoto contra a frivolidade espiritual. Se a eternidade é real, então a Igreja não pode se dar ao luxo de brincar de religião.

Sua relação com David Wilkerson é um dado histórico relevante. Wilkerson reconhecia Ravenhill como mentor espiritual e fez questão de preservar e divulgar sua obra, especialmente após sua morte, em 27 de novembro de 1994. Essa amizade não foi estratégica; foi espiritual. Ambos compartilhavam a convicção de que Deus ainda age com poder, mas não negocia Sua santidade.

Ao avaliar Ravenhill com honestidade histórica, percebo que ele não responde a todas as perguntas do nosso tempo. Ele não tratou em profundidade de algumas complexidades culturais que hoje enfrentamos. Mas talvez essa não fosse sua missão. Sua vocação foi ser um despertador, não um arquiteto. Ele não nos deixou mapas detalhados; deixou alarmes soando.

Por isso, escrevo este artigo em primeira pessoa, assumindo minha responsabilidade como leitor e como herdeiro desse testemunho. Ravenhill não me oferece conforto; oferece confronto. Ele não me dá estratégias; dá um espelho. Ao lê-lo, sou forçado a perguntar não se a Igreja é relevante, mas se ela é fiel. Não se ela cresce, mas se ela ora. Não se ela impressiona o mundo, mas se ela treme diante de Deus.

Concluo com uma exortação pastoral, não como quem se coloca acima, mas como quem também é chamado ao arrependimento. Leonard Ravenhill não precisa que concordemos com cada uma de suas frases. Ele precisa — e nós precisamos — que levemos a sério o Deus de quem ele falava. A Igreja do nosso tempo não carece de criatividade, mas de quebrantamento. Não carece de mais barulho, mas de mais lágrimas. Não carece de novas fórmulas, mas de velhos altares restaurados.

Se a voz de Ravenhill ainda ecoa, é porque Deus ainda chama Sua Igreja de volta à oração, à santidade e à eternidade. A pergunta final não é se ele foi radical demais. A pergunta é se nós nos tornamos mornos demais.

Que o Senhor nos converta novamente a Si mesmo — e então, verdadeiramente, seremos convertidos.

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